Friday, August 13, 2004

I. OS FACTOS INCOMPATÍVEIS

  1. A Genebra Calvinista, a Escócia de John Knox e os pólos de desenvolvimento católicos

    Uma primeira crítica prende-se com o facto de a Genebra de Calvino não ser desenvolvida. De facto, na Genebra de Calvino, as actividades económicas são severamente reguladas e o empréstimo a juros, se bem que permitido por pressão dos comerciantes, encontra-se sujeito ao princípio Aristoteliano do “preço justo”, que é imposto pelas autoridades às actividades comerciais.

    Da mesma forma, na Escócia Presbiteriana, não só a ética puritana não promoveu o desenvolvimento económico, como a modernização económica não era valorizada.

    Ao contrário, a Bélgica, Veneza e a Colónia Católicas obtém um sucesso económico de proporções consideráveis, e superior a algumas cidades Calvinistas.

    Estas três realidades contradizem a tese Weberiana.

  2. Os pólos de desenvolvimento anteriores à reforma protestante

    Como notou Werner Sombart no seu livro “O Burguês” e, mais tarde, Schumpeter, antes de Lutero e antes de Calvino, existiam já pólos de desenvolvimento económico e estruturas empresariais complexas e modernas, pelo que a modernização económica foi o resultado de um processo evolutivo e não de uma alteração de mentalidades e da criação de um espírito capitalista, como defendia Weber.


  3. O desenvolvimento protagonizado por não protestantes

    Outro conjunto de factos não explicados pela teoria, resultam do papel desempenhado por empresários não protestantes nos processos de desenvolvimento. O caso dos Judeus foi desde logo referido numa das primeiras críticas à tese de Weber apresentada por Werner Sombart no seu livro “O Burguês”.

  4. Os pólos de desenvolvimento posteriores à reforma protestante

    Michael Novak recorda que: "In the century since the publication of The Protestant Ethic, the world has seen more than a hundred nations undergo massive economic and political transformations. Such transformations have put Weber’s thesis to the test. Toward the end of the last century, in particular, several scholars were struck by the number of disparate nations in which something very much like a Weberian development seemed to be taking place: an enormous transformation of attitudes toward work and wealth, preceded or accompanied by a profound religious conversion. Scholars today have a wealth of data to collect and reflect upon from the “economic miracles” we have experienced since the end of World War II. Nation after nation, region after region, has entered upon a process of rapid economic growth and political transformation. Since 1980, in a story largely still untold, China and India have between them raised more than half a billion of their citizens out of poverty in their rapid adoption of economies of enterprise, relatively free markets, low taxation, and global trade."

    Dificilmente estes processos de desenvolvimento podem ser atribuídos ao Protestantismo.


II. ERROS SOBRE A TEOLOGIA E A PASTORAL PROTESTANTE

Neste capítulo apresentam-se as críticas à tese de Weber que se fundamentam na análise das hipóteses psicológicas apresentadas por este.

  1. A ansiedade provocada pelo “Terrível Decreto”

    Para Weber a transformação da ética puritana no espírito do capitalismo resulta da ansiedade provocada pela incerteza quanto à salvação. Esta é determinada por Deus e independente da acção dos homens. Este facto cria no crente Calvinista um “estado de ansiedade” que o leva a procurar no seu sucesso profissional um indício do favor divino.

    No entanto, pesquisas efectuadas por Marshall Knappen nos textos teológicos puritanos da época não permitiram identificar referências ao estado de ansiedade provocado pela predestinação, sendo na melhor das hipóteses um fenómeno circunscrito à Genebra do séc.XVI. Este facto coloca em causa o esquema montado por Weber para explicar a origem do espírito capitalista na ética puritana.

  2. A interpretação errada do conceito de vocação

    Diselkamp coloca em causa a interpretação que Weber faz da ideia de vocação em Lutero. Weber terá interpretado este conceito à luz do seu tempo, enquanto que no tempo de Lutero este conceito dizia respeito a condição ou Estado. Desta forma, Weber não poderia ter associado vocação a sucesso profissional e esta a riqueza.

III. A ANÁLISE MULTI-CAUSAL DA MUDANÇA SOCIAL

A valorização da tese culturalista da mudança social, apesar de necessária tendo em consideração os excessos do marxismo e da obsessão pela mensuração, poderá ser excessiva.

Vários autores que salientam a importância dos factores morais e culturais da mudança social, não deixam de salientar outros factores estruturalistas e institucionalistas. Senão vejamos:

  • O próprio Weber afirma que a ética puritana não só não é a causa única do capitalismo, como não é uma condição necessária e suficiente. Para Weber factores económicos e culturais interagem e, dependendo do tempo e do lugar, ganham predominância;

  • Por sua vez, Francis Fukuyama, no seu livro “Confiança-Valores Sociais e Criação de Prosperidade”, afirma que “Podemos olhar para o pensamento económico considerando-o correcto a, digamos, 80%: ele trouxe à luz do dia verdades importantes sobre a natureza do dinheiro e dos mercados, isto porque o seu modelo fundamental do comportamento humano, racional e centrado no interesse próprio , está correcto a 80%. Mas ficam de fora 20% relativos ao comportamento humano, sobre os quais o pensamento económico neo-clássico apenas nos dá uma pálida ideia. (...) a vida económica está profundamente mergulhada na vida social e não pode ser apreendida separadamente dos costumes, da moral e dos hábitos da sociedade em que se desenvolve – em resumo, a vida económica não pode ser dissociada da cultura”;

  • Refira-se, ainda, que Brigitte Berger, Professora de sociologia na Boston University e co-autora com o seu marido, Peter Berger, de vários livros sobre a importância da cultura nos processos sociais, no seu livro “The Culture of Entrepreneurship”, refere que “the birth of modern industrial culture is rooted in the values and practices of many small domestic groups. (...) It would of course be foolish to deny that external factors such as production and technology as well as those of law and politics had no influence on this process. In their mastrerful ‘Rise of the Western World: A new economic history’, Douglass North and Robert Thomas have detailed many of these external factors”.

    De referir que na obra citada pela Srª Berger, Douglass North, prémio Nobel da economia em 1992, defende que a prosperidade depende da organização económica eficiente. Uma organização económica eficiente traduz-se num conjunto de arranjos institucionais que criam incentivos para a canalização dos esforços individuais para fins socialmente produtivos. Neste livro é descrito o lento nascimento e evolução dos sistemas de direitos de propriedade que permitiram o crescimento económico, de que a Revolução Industrial é uma manifestação;


Os processos de mudança social serão assim causados por um conjunto de causas morais e culturais, económicas e institucionais, que interagem entre si para produzir o processo de mudança.

IV. HIPÓTESES ALTERNATIVAS

  1. A influência de factores económicos não considerados por Weber

    1. Durkheim e a crescente divisão do trabalho

      De acordo com Durkheim, a complexificação da divisão do trabalho contribuiu para a modernização da economia. Simultaneamente, ao atribuir aos indivíduos papeis crescentemente diferenciados, a modernização provocou o desenvolvimento de valores individualistas, uma manifestação dos quais seria o Protestantismo. Assim, a correlação entre protestantismo e capitalismo seria resultado de uma causa comum – a crescente divisão do trabalho, e não implicaria qualquer relação causal.

    2. O oportunismo dos puritanos

      Por outro lado, Kurt Samuleson contrapõe à alegada ruptura psicológica resultante do protestantismo, a hipótese de que a defesa de posições mais favoráveis às actividades económicas se deve à adaptação dos teólogos protestantes aos desenvolvimentos económicos da época. Para cimentar a sua teoria, o mesmo autor refere que os “novos” princípios teológicos desenvolvidos pelos Protestantes, e que estariam na base da ruptura psicológica atribuída por Weber ao Protestantismo, encontravam-se já presentes em períodos anteriores. Por exemplo, as posições Protestantes sobre a indolência repetiam apenas os princípios expressos por teólogos católicos como S. Paulo e S. Tomás, e a heresia Arminiana incluía a Predestinação (referência feita por Pellicani). De qualquer forma, Samuelson descobre que os sermões da altura tratam apenas de questões religiosas e não económicas.

    3. A conjuntura económica

      Christopher Hill, por sua vez, apresenta uma hipótese alternativa. Ao contrário do que propõe Weber, não é a ética puritana que permite o desenvolvimento do espírito do capitalismo moderno. A propaganda da nova atitude face ao trabalho deve-se à conjuntura económica e à identificação da resolução da crise económica com a disciplina e o ardor no trabalho.


  2. A influência de factores de natureza estrutural

    1. As diferenças institucionais

      Da mesma forma, alguns autores explicam as diferenças económicas entre países Protestantes e Católicos com base nos diferentes enquadramentos institucionais existentes, não se verificando um relação causal entre Protestantismo e Capitalismo, mas apenas uma simples correlação.

      Assim, Herbert Luthy atribui o sucesso económico da Holanda protestante à maior liberdade comercial dos bancos e aos efeitos sobre a actividade económica de um maior dinamismo deste sector da economia.

      Ainda, Naguère e Root apontam as instituições financeiras e políticas da Inglaterra protestante como fonte da vitalidade económica daquele país e da sua superioridade em relação à França. Desta forma, não são as questões religiosas que explicam as diferenças entre nações.


  3. A influência de factores de natureza sociológica

    1. A Importância económica dos protestantes como resultado da desigualdade de oportunidades

      Walter Scolfield contrapõe à relação entre a ansiedade psicológica provocada pela Predestinação e o sucesso económico dos Protestantes, a teoria segundo a qual o sucesso e a sobre-representação dos protestantes entre as elites económicas se deve ao facto das profissões a elas ligadas serem as únicas que lhes estariam abertas, da mesma forma que os Judeus na Idade Média se dedicaram às actividades credíticias. Em relação a outras profissões, as perseguições e o controlo social impediriam o acesso dos Protestantes.


  4. A influência de outros factores de natureza religiosa e cultural

    1. Contributos de outras religiões e influências culturais

      Michael Novak considera que: "The point is not to deny that the Protestant Reformation unleashed a special dynamic energy, but rather to note the crucial contribution of other religious and cultural influences to the development of the capitalist order, in its unique blend of dynamism and creativity.

      Weber’s Calvinists, but also Catholics in the cities of France and Northern Italy, as well as skeptics and freethinkers throughout Europe—all of them shared a strong spirit of enterprise and a talent for organization and practical execution. To put it in Weberian language, they participated in a new moral sensibility that longed to bring new worlds and new wealth into existence.

      Many spiritual impulses fed this new sensibility, not only the Calvinist doctrine of predestination."


  5. Uma aplicação da "Law of Unintended Consequences"

    Michael Novak refere que: "A formal doctrine whose original intention was to remove all concern with works-righteousness ended up propelling its adherents towards an unprecedented, almost painful, obsession with works. And this totally unforeseen and negative psychological consequence had extremely beneficial economic effects—in fact, economically revolutionary effects."

V. HIPÓTESES ALTERNATIVAS: Hugh Trevor-Roper - “Religião, Reforma e Transformação Social”

Entre as teorias alternativas e tentativas de refutação da tese de Weber sobre a emergência do capitalismo, destaca-se a teoria apresentada por Trevor Roper no livro citado no título deste capitulo. O autor coloca em causa a existência de uma descontinuidade entre o “capitalismo de aventureiros” e o “capitalismo moderno”, e a correlação entre puritanismo e capitalismo. Por outro lado, aponta determinados factos relacionados com a origem geográfica e religiosa dos empresários do séc. XVII que não são explicados por Weber, e apresenta como factor explicativo do sucesso económico dos países Protestantes e do relativo atraso dos países católicos, os efeitos migratórios e económicos da contra-reforma.

  1. Da Renascença ao Iluminismo, do domínio católico ao domínio protestante

    Trevor-Roper debruça-se sobre o período da história da Europa que se estende entre 1500 e 1800. Neste período, ele identifica os dois movimentos essenciais que nele ocorreram: a Renascença e o Iluminismo. Entre os dois verifica-se um período de pausa e de recessão, os anos de 1620 a 1660, que demarcam os dois períodos anteriormente citados. Trevor-Roper observa que durante este período se verifica uma mudança fundamental: Na Renanscença a Espanha e a Itália tinham dominado intelectual e economicamente, enquanto que no período seguinte são as nações do Norte da Europa, nomeadamente a Holanda, a Inglaterra e a França que dominam. Trevor-Roper pretende debruçar-se sobre o fenómeno da religião enquanto factor explicativo desta mudança, e desde logo elege a tese de Weber como aquela que pretende testar e verificar a partir da observação dos factos históricos.

  2. A religião enquanto causa da mudança: A tese de Weber

    Trevor-Roper afirma, como hipótese de partida, que de facto existe um fundo de verdade em Weber, mas que este não definiu essa verdade de forma correcta.
    Observando a sociedade europeia no final da década de 1620, Trevor-Roper verifica que os grandes homens das finanças, credores de Reis Protestantes e Católicos, são de facto Calvinistas dos Países Baixos e da Flandres, de origem Holandesa, Flamenga ou Valã. Em meados do século XVII, conclui Trevor-Roper, a elite económica europeia é Calvinista.

    Perante estes factos, a tese de Weber aparentemente confirma-se. No entanto, Trevor-Roper pretende investigar mais profundamente a realidade que acabou de descrever.

  3. O Ascetismo inter-mundano não encontrado

    Os grandes empresários e financeiros que Trevor-Roper identifica, não são, no entanto, Calvinistas ortodoxos. Aliás, Weber nunca afirmou tal coisa, referindo que a sua ética protestante é o depósito moral que fica após a fé ter desaparecido [o Capital Social diríamos nós]. Esse depósito moral seria o ascetismo inter-mundano, que se reflectiria na dedicação ao trabalho enquanto vocação, no desprezo pela riqueza e numa vida frugal.

    No entanto, Trevor-Roper não consegue identificar estas características entre os empresários Calvinistas. Os empresários Calvinistas viviam na opulência e valorizavam a propriedade de bens e as honrarias.

    Não sendo a fé Calvinista nem a ética puritana os denominadores comuns desta elite económica, Trevor-Roper dedica-se então a procurar os factores de união entre esta nova classe.

  4. O factor de união: Imigrantes influenciados por Erasmo

    Este autor verifica então que os membros desta nova elite económica são, em primeiro lugar, imigrantes de primeira ou segunda geração e, em segundo lugar, provenientes da Flandres ou do principado católico de Liége, que anteriormente se tinham instalado em Amsterdão e contribuído para o seu desenvolvimento.

    Ideologicamente, estes indivíduos foram influenciados por Erasmo, que defendia o “cristianismo primitivo”, a devoção particular, o estudo da Bíblia, e que acreditavam na santidade da vida laica. Este sucesso de Erasmo junto das classes ligadas às actividades económicas mais dinâmicas estaria ligado à necessidade de justificação ideológica do papel social e político já desempenhado por esta classe.
    Trevor-Roper verifica, igualmente, que, mais que a sua religião, o factor de união entre estes homens era a sua origem geográfica. São Calvinistas Holandeses, Judeus e Católicos de Espanha e Portugal, Alemães do sul e Italianos de Como, Lucarno e Milão, antigos pólos de desenvolvimento de épocas anteriores.

  5. A origem do capitalismo moderno como evolução e não como ruptura face ao capitalismo comercial dos séculos precedentes

    Estes factos levam Trevor-Roper a enunciar uma nova teoria da origem do capitalismo moderno que contradita a análise Weberiana. Ao contrário de Weber, que defendia existir uma ruptura entre o “capitalismo de aventureiros” dos séculos anteriores e o “capitalismo moderno” do séc, XVII e seguintes, Trevor-Roper defende que estes imigrantes transplantaram dos antigos pólos de desenvolvimento católico as técnicas, os conhecimentos e os capitais necessários para desencadear a modernização económica dos países protestantes.

    Ao colocar esta hipótese, Trevor-Roper afasta a necessidade de responder à questão de Weber sobre as causas do aparecimento do capitalismo moderno no século XVII, mas levanta a questão de saber porque razão os actores da modernização económica do século XVII deixaram os pólos Católicos de desenvolvimento dos séculos precedentes e se fixaram em cidades Protestantes.

  6. A contra-reforma como factor explicativo da vaga de imigração burguesa, e a inversão da causalidade entre ética puritana e espírito do capitalismo

    A vaga de imigração acima descrita terá sido resultado dos excessos da Contra-Reforma, que tornaram a Igreja intolerante face ao Erasmismo, empurrando os burgueses para a igreja Calvinista e forçando-os a emigrar para os países Protestantes.

    Por outro lado, a igreja da contra-reforma uniu-se ao Estado, tendo estas entidades criado em conjunto um dispendioso aparelho de poder e propaganda. Este aparelho não só se tornava intolerável do ponto do vista fiscal, como criava um novo tipo de sociedade menos favorável ao espírito empreendedor e mais burocrática e administrativista. Este desenvolvimento desvalorizava do ponto de vista social as profissões ligadas ao mercado, e valorizava as profissões associadas ao aparelho burocrático. Este facto, associado às oportunidades de negócio existentes nos países Protestantes, contribuiu também para o êxodo dos empresários.

    Desta forma, e ao contrário do que Weber defendia, não foi o Calvinismo que criou um novo tipo de homem, que por sua vez criou o capitalismo; o que aconteceu foi que a velha elite económica da Europa foi empurrada para a heresia devido ao facto das suas atitudes de espírito (Erasmistas) terem passado, subitamente, a ser considerada heréticas e intoleráveis. Por outro lado, o catolicismo poderia ter fornecido a base moral do capitalismo, não fosse a contra-reforma. Esta, por sua vez, foi causada pela...Reforma Protestante.

    Assim se explica, por um lado, o contraste da atitude e do desempenho económico de Genebra, no tempo de Calvino e no período posterior às migrações. A contrario, seria explicado o caso da Escócia, que não tendo beneficiado destes fluxos migratórios, não sofreu a evolução económica ocorrida em Genebra.

VI. HIPÓTESES ALTERANTIVAS: Michael Novak e "A Ética Católica e o Espírito do Capitalismo”

No seu livro “A Ética Católica e o Espírito do Capitalismo” , Michael Novak responde a esta última crítica, e defende que Max Weber compreendeu mal a natureza do capitalismo. Por essa razão, a sua condenação do Catolicismo no que diz respeito à sua capacidade de modernização económica é errada.

Weber argumentava que a essência do capitalismo é a lógica pura e o individualismo.
Novak argumenta que, para além do espírito burguês da ética do trabalho, valorizado por Weber, o capitalismo é composto pelo espírito de empresa. Por outro lado, o capitalismo é sobretudo um processo social, resultante da livre associação e cooperação.

Desta forma, a teologia católica explica melhor o fundamento do capitalismo do que a teologia Protestante, visto que:

  • Na teologia católica, a ênfase está na criatividade humana, no espírito inventivo, na abertura ao imprevisto e na capacidade de aceitar riscos (o “factor D. Quixote” nas palavras de uma assessor de João Paulo II);

  • A teologia católica tem enfatizado sempre o sentido de comunidade.

VII. BREVE AVALIAÇÃO

  1. Um dos aspectos da teoria de Weber seria a identificação de dois capitalismos distintos, o “capitalismo de aventureiros” e o “capitalismo moderno”. No entanto, os argumentos e investigações históricas acima apresentadas, nomeadamente, por Sombart, Schumpeter, Trevor-Roper e mesmo Durkheim, não validam esta asserção. O facto que se torna realmente necessário explicar é a alternância de liderança económica entre países Católicos e países Protestantes, e não a diferença entre dois capitalismos.

  2. Por outro lado Weber tinha uma concepção particular do capitalismo moderno, ligada aos processos racionais e burocráticos. No entanto, como Novak afirma e a ciência económica confirma, a essência do capitalismo, para além dos valores da “ética de trabalho”, é composta também pelo espírito de iniciativa e de risco, que Weber não considerou na sua análise. Aliás a descrição do capitalismo moderno feita por Weber aproxima-se por vezes de modelos económicos opostos ao capitalismo.

  3. Quanto à associação quase causal entre ética puritana e espírito do capitalismo, esta é colocada em causa por aqueles autores como Sombart e Schumpeter, que apresentam exemplos de pólos de desenvolvimento modernos anteriores a Lutero e Calvino, e por aqueles autores, como Durkheim, Trevor-Roper, ou alguns críticos da “hipótese psicológica”, que consideram que a correlação entre estes dois aspectos se funda em causas comuns ou noutros factores, nomeadamente institucionalistas.

  4. No que diz respeito à “hipótese psicológica”, mesmo Bourdon, que em face aos outros argumentos defende Weber, considera que as objecções ao papel da predestinação, acima apresentadas, serão válidas, visto que este dogma se encontraria na tradição Augustiniana em que o Luteranismo se filia, não explicando, por essa razão, as diferenças de desempenho económico entre Luteranos e Calvinistas, nos termos em que Weber pretendia.

  5. Quanto à alegada incompatibilidade entre Catolicismo e capitalismo, vários autores apresentam exemplos históricos que colocam em causa esta conclusão. Novak, por sua vez, apresenta argumentos de natureza teológica que apoiam a conclusão contrária. Aliás refira-se que este autor apresenta os exemplos contemporâneos de desenvolvimento de países católicos e a 3ª vaga de democratização referida por Huntington, para provar que o catolicismo não é incompatível com o desenvolvimento económico e com a democracia.

Monday, January 12, 2004

ADENDA: Outras referências

  • Michael Novak, Max Weber Goes Global, First Things, April 2005

    • Here, then, is a classic and powerful instance of the Law of Unintended Consequences. A formal doctrine whose original intention was to remove all concern with works-righteousness ended up propelling its adherents towards an unprecedented, almost painful, obsession with works. And this totally unforeseen and negative psychological consequence had extremely beneficial economic effects—in fact, economically revolutionary effects.

    • Weber’s account of capitalism is far from uniformly positive...Weber understood capitalism primarily in terms of duty, asceticism, and self-denial—and he stressed its tendency to encourage instrumental calculations of cost and benefit, as well as to employ a purely formal mode of thinking and reason. Most ominously, once capitalism becomes divorced from its original religious impulses, it turns into iron cage” from which we are unable to extricate ourselves. The Puritan wanted to work in a calling; we, by contrast, are forced to do so. The “inexorable power” of the capitalist ethic rests upon “mechanized foundations.” Weber discerns in this atheistic, secular system a “mechanical petrification.” He describes the fate of modern man in terms as bleak as those found in the writings of such poets as Matthew Arnold, T. S. Eliot, and Ezra Pound. For Weber, modern capitalists are “specialists without spirit, sensualists without heart.”

    • Is Weber’s outlook justified by the reality of life under capitalism? Or is it instead the result of his mistaking certain aspects of capitalism—aspects that ultimately derive from secularized Reformed Protestantism? The Protestant ethic may issue in hard work, asceticism, and an always unsatisfied striving for material betterment, but doesn’t capitalism also foster ingenuity and inventiveness? Put theologically, the Protestant ethic tends to emphasize conversion and change of life that can be wrought only by divine grace. An alternative but no less important ethic—one that can be described as a “Catholic” ethic—has historically worked to emphasize that, despite the wounds inflicted on creation by sin, the world retains marks of God’s goodness. If Protestant striving has inspired economic dynamism, Catholic delight in the goodness of creation has, by comparison, encouraged economic creativity.

    • The point is not to deny that the Protestant Reformation unleashed a special dynamic energy, but rather to note the crucial contribution of other religious and cultural influences to the development of the capitalist order, in its unique blend of dynamism and creativity.

    • Weber’s Calvinists, but also Catholics in the cities of France and Northern Italy, as well as skeptics and freethinkers throughout Europe—all of them shared a strong spirit of enterprise and a talent for organization and practical execution. To put it in Weberian language, they participated in a new moral sensibility that longed to bring new worlds and new wealth into existence.

      Many spiritual impulses fed this new sensibility, not only the Calvinist doctrine of predestination.

    • In the century since the publication of The Protestant Ethic, the world has seen more than a hundred nations undergo massive economic and political transformations. Such transformations have put Weber’s thesis to the test. Toward the end of the last century, in particular, several scholars were struck by the number of disparate nations in which something very much like a Weberian development seemed to be taking place: an enormous transformation of attitudes toward work and wealth, preceded or accompanied by a profound religious conversion. Scholars today have a wealth of data to collect and reflect upon from the “economic miracles” we have experienced since the end of World War II. Nation after nation, region after region, has entered upon a process of rapid economic growth and political transformation. Since 1980, in a story largely still untold, China and India have between them raised more than half a billion of their citizens out of poverty in their rapid adoption of economies of enterprise, relatively free markets, low taxation, and global trade.

    • Weber may have unnecessarily limited himself by focusing exclusively on the role of Calvinism in the emergence of capitalism; no doubt his thesis would benefit from a broader, more generalized restatement. Yet in our newly dynamic world, Weber’s identification of necessary spiritual and moral conditions for successful economic activity continues to be a source of wisdom. Weber rightly teaches us that success in economics is largely dependent on the spiritual and moral qualities embodied in the practice of economic agents. Moral and spiritual flaws, in other words, have economic consequences. In economic transactions, a failure of insight, determination, perseverance, honesty, respect for law, or cooperativeness with one’s fellows can be self-defeating.